quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Conto Brasileiro 21

O ônibus chega. Todos chamam, ele pára, e todos comemoram silenciosamente sua chegada. Aquelas pessoas todos então sentem uma certa urgência de se apressar para entrar no veículo para que as pernas cansadas possam descansar. O homem deu uma certa sorte, está próximo do local onde o ônibus parou. Eles se enfileiram como manada, e a cada passo lento o corpo dança de um lado para o outro, como um João-Bobo. Quando o homem está subindo a escada do ônibus, eleolha para o lado, e lá no retrovisor, lá estava ele. E parece que dizia "Você não se cansa de ser sempre igual a mim?".

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Conto Brasileiro 20

Ele agora espera no ponto de ônibus. O ponto diminuiu com o passar dos anos, pois o número de pessoas que o usam cresceu, e tudo neste universo é relativo. Por isso o ponto diminuiu, e isso é óbvio. Ele mesmo pensou isso uma vez. Já faz tempo, mesmo que na cabeça o tempo seja mais relativo ainda. Ele nem se lembrava há quanto tempo ele já sabia pensar. Parecia que foi ontem mesmo, mas também parecia que ele sempre soube. O fato é que quando tomava uma decisão inteligente, ficava muito claro na cabeça dele o quanto ele sabia pensar. Mas quando isso não acontecia, ele ficava em dúvida. E agora já eram as pernas cansadas de ficar em pé que o impediam de pensar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Conto Brasileiro 19

Ele amassa a embalagem do salgadinho. Embalagem escandalosa. Grita como se nunca tivesse sido escutada em toda sua vida, como quem clama por direitos, como o crepitar da liberdade, como fogo vivo. Grita como ele nunca havia gritado. O ponto de ônibus estava perto. E como um bom cidadão, ele joga a embalagem no lugar em que deve ser jogada, no lixo. E ela, aos gritos, acaba por sucumbir nas profundezas do lugar que em breve estaria alagado por chorume, pronta para ser tratada como todos aqueles que tentaram gritar antes, pronta para ser silenciada, pronta para ser abandonada no ermo ou transformado em algum outro tipo de massa silencioza.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Conto Brasileiro 18

Acabado o salgadinho, o homem come os farelos, lambe os beiços e o dedos. Continua andando para chegar ao interminável ponto de ônibus. Não, a caminhada é que era interminável. Mas o ponto de ônibus também. Estivera sempre lá, no mesmo lugar, frequentado todos os dias pelas mesmas pessoas, um lugar já tão familiar, mas sempre lá, tão distante de todos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Conto Brasileiro 17

A cada nova mastigada, seu estômago aflito por novidades resmungava alegremente. Os dentes se despediam e voltavam a se encontrar novamente, sempre com aquela composição entre eles, como se estivessem fazendo amor. A língua era o DJ da festa. Engolir era encarnar aquela nova energia. As papilas gustativas trabalhavam como nunca. Os estímulos todos eram enviados ao cérebro e convertidos em prazer. Na prática, o corpo trabalhava, por aquele salgadinho, o mesmo tanto que o homem costumava trabalhar por um salário sem sal.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A História do Homem e da Cobiça

A história do homem é a história da cobiça. Desde que o homem surgiu, trouxe dentro de si a cobiça, e a alimentou com um carinho maior do que era capaz de alimentar a si mesmo. O homem sempre cultivou a cobiça, a viu crescer, a admirou quando disse suas primeiras palavras, quando deu seus primeiros passos. E, como um pai encorajador, o homem deu condições para que essa cobiça pudesse se desenvolver. Criou um sistema para sua própria vida que alimenta mais ela do que ele, e logo a cobiça cresceu e ficou maior do que o homem. Isso fez crescer sua admiração por ela, e ele continuou a alimentá-la incondicionalmente, até que ela se tornasse um sistema independente regendo a própria vida do homem. E regido por essa cobiça, o homem foi devorando o planeta de maneira a não sobrar mais nada em sua superfície. Quando tudo estiver coberto, e não houver mais nada além do homem e da cobiça, não haverá escapatória, o homem será devorado pela cobiça, e ambos deixarão de existir, do mesmo modo como nasceram.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Conto Brasileiro 16

Ainda com aquela alegria dourada nas mãos, seguiu andando, com uma expressão otimista e ingênua. Nada melhor do que aquela sensação de que tudo era bom, não importando os sinais que o mundo lhe mandava a cada volta, a cada estação, a cada suspiro. Suspirou. Ele merecia se presentear, decidiu. Avistou logo ali na frente uma banquinha com salgadinhos, e sentiu que é lá que estava seu presente. Escolheu com cautela, e encontrou justamente a opção que mais agradaria seu paladar. Pagou o um real para o vendedor e seguiu. Pagou um real pelo salgadinho que custou apenas 70 centavos para aquele vendedor, e que custou apenas 34 centavos para seu fabricante, e que custou uma vida miserável para todos que o ajudaram a chegar ao estômago do cidadão inocente.